Em quatro anos, governo federal assinou 36 acordos com Pequim; China controla energia, portos, mineração, dados e telecomunicações do país — e o debate sobre soberania ainda não começou
Brasília – Há uma forma de conquistar um território sem exércitos, sem conflitos e sem manchetes. Basta comprar sua energia, controlar seus portos, minerar suas riquezas, operar sua infraestrutura de dados e inundar seu mercado com produtos mais baratos do que o país consegue produzir. É exatamente isso que a China vem fazendo no Brasil — de forma metódica, paciente e com a anuência do governo federal.
Em 2025, o Brasil se tornou o principal destino global dos investimentos chineses no exterior, recebendo US$ 6,1 bilhões em 52 projetos — crescimento de 45% em relação a 2024 e o maior volume desde 2017, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China. O país ficou à frente dos Estados Unidos e da Guiana na preferência do capital de Pequim. Não é coincidência. É estratégia.
Os 36 acordos que o Brasil assinou sem debate público
Em maio de 2025, durante sua quarta visita de Estado a Pequim — a terceira em pouco mais de dois anos —, o presidente Lula encerrou a viagem com a assinatura de 36 acordos com o governo chinês, abrangendo infraestrutura, energia, mineração, tecnologia, finanças, comunicações, saúde e educação. Nenhum deles passou por debate no Congresso Nacional antes de ser assinado. Nenhum foi submetido a consulta pública. Nenhum teve avaliação independente de risco à segurança nacional.
Entre os acordos mais sensíveis está o memorando entre a Casa Civil brasileira e a Comissão de Desenvolvimento e Reforma da China para estabelecer sinergias entre o PAC e a Nova Rota da Seda — o maior projeto de expansão geopolítica chinesa do século. Outro ponto crítico foi a parceria entre a Dataprev e a Huawei para construir a Infraestrutura Nacional de Dados de Inteligência Artificial — o banco de dados estratégico do Estado brasileiro. Em linguagem direta: a empresa que o Pentágono classifica como risco à segurança nacional foi contratada para construir o sistema que concentrará os dados sensíveis do governo federal brasileiro.
A isso se somam a parceria da Telebras com a Spacesail para ampliar satélites de baixa órbita; o acordo de swap de moedas entre o Banco Central do Brasil e o Banco Popular da China — que abre caminho para transações bilionárias em yuan, reduzindo a dependência do dólar e criando laços financeiros estruturais com Pequim; e os R$ 27 bilhões em investimentos anunciados no Fórum Empresarial Brasil-China em projetos de infraestrutura, energia renovável, indústria, mobilidade e tecnologia.
Onde a China já chegou — e o que controla
O mapa da presença chinesa no Brasil é mais extenso do que a maioria dos brasileiros imagina. Na energia elétrica, a State Grid controla a CPFL desde 2017, distribuidora que atende mais de 10,6 milhões de clientes em São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná. Também atuam no setor a China Three Gorges, a SPIC e a China Energy. Uma parte relevante da eletricidade que ilumina o Sul Fluminense já passa por mãos chinesas.
Nos portos, a Cofco opera o terminal STS-11 no Porto de Santos com capacidade de movimentar 14,5 milhões de toneladas de grãos por ano. A China Merchants Port anunciou intenção de adquirir 70% do Porto de Açu, o maior terminal de exportação do Brasil para petroleiros. Em 2017, o mesmo grupo já havia comprado 90% de um operador portuário em Paranaguá por R$ 925 milhões.
Na mineração, os investimentos chineses triplicaram em 2025, chegando a US$ 1,76 bilhão. O foco está em minerais críticos — lítio, nióbio, cobalto, grafite e terras raras — essenciais para baterias e veículos elétricos. A estatal Hulunbuir State Farm Group foi autorizada a comprar e arrendar terras no Brasil para cultivar soja, milho e algodão.
No agronegócio, a Cofco International é uma das maiores tradings de grãos do Brasil, controlando parte da cadeia logística e de exportação da soja, do milho e do açúcar. A ChemChina, por sua vez, adquiriu a Syngenta por US$ 46 bilhões em 2017 — passando a controlar parte dos insumos agrícolas usados por produtores brasileiros.
Nas telecomunicações, a Huawei lidera a infraestrutura de redes no Brasil, fornecendo equipamentos para operadoras e participando da implantação do 5G. Enquanto Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e países europeus adotaram restrições severas à empresa por questões de segurança nacional, o Brasil a contratou para construir o banco de dados estratégico do Estado. T
Na indústria, a BYD assumiu a antiga fábrica da Ford em Camaçari com US$ 3 bilhões em investimentos. A GWM adquiriu a planta da Mercedes-Benz em Iracemápolis. A GAC Motor constrói fábrica em Catalão, em Goiás. No varejo digital, Shein, Temu e AliExpress dominam o comércio eletrônico de baixo custo, enquanto a plataforma de delivery Meituan chegou ao Brasil em 2025.
O risco que ninguém quer nomear
Diferentemente das economias liberais, onde existe separação institucional mais clara entre governo, empresas e Estado, a China opera sob um sistema no qual o Partido Comunista mantém influência significativa sobre setores considerados prioritários. Legislações de segurança nacional aprovadas nos últimos anos ampliaram a capacidade do Estado chinês de requisitar colaboração de empresas em temas de interesse nacional.
Isso significa que uma empresa chinesa operando no Brasil — seja ela fornecedora de energia, gestora de porto, operadora de telecomunicações ou construtora de infraestrutura de dados — pode, sob determinadas circunstâncias, ser obrigada por lei a colaborar com o governo de Pequim. Não é especulação. É o texto da legislação de segurança nacional chinesa, aprovada em 2017 e ampliada em 2021.
Os Estados Unidos identificaram esse risco e colocaram a BYD e o Alibaba na lista de empresas ligadas ao Exército chinês. O Reino Unido, a Austrália, a Índia e a maioria dos países europeus revisaram ou bloquearam investimentos chineses em infraestrutura crítica. O Brasil ainda não tem uma política definida sobre onde traçar esse limite.
A quatro soberanias que o Brasil entregou
O analista político que viralizou nas redes sociais com a expressão “36 acordos, zero soberania” identificou com precisão o que os números do CEBC confirmam tecnicamente: o Brasil entregou simultaneamente quatro dimensões de soberania estratégica.
A soberania energética, com empresas chinesas controlando distribuição elétrica para milhões de brasileiros. A soberania industrial, com a cadeia automotiva nacional sendo destruída pela concorrência predatória de importados com isenção fiscal. A soberania informacional, com a Huawei dentro da infraestrutura de dados do Estado via Dataprev. E a soberania infraestrutural, com portos, projetos de ferrovias e satélites sendo negociados em Pequim.
O que isso significa para o Sul Fluminense
A região concentra três dos setores mais atingidos pela expansão chinesa. Os pneus importados da China já respondem por 60% do mercado de reposição — contra 31% da produção nacional — e foram apontados como causa direta do fechamento da fábrica Michelin de Guarulhos em 2025. O aço chinês levou à demissão de 5.100 trabalhadores no setor siderúrgico nacional em 2024 — impactando diretamente CSN e ArcelorMittal. E a isenção fiscal para importação de carros elétricos chineses ameaça os empregos das montadoras instaladas em Resende e Porto Real.



















