Estruturas com centenas de smartphones conectados simultaneamente simulam comportamento humano em escala industrial, enganam algoritmos e constroem reputações — e eleições — sobre mentiras
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Imagine uma parede inteira de smartphones, conectados lado a lado, todos funcionando ao mesmo tempo, curtindo, comentando, compartilhando e seguindo perfis de forma automática — sem que nenhum ser humano esteja por trás de cada ação. Essa não é uma cena de ficção científica. É o que o fotógrafo britânico Jack Latham documentou em 2023, quando passou semanas dentro de fazendas de cliques no Vietnã, registrando o funcionamento real dessas operações. O que ele encontrou foram estruturas organizadas em casas e hotéis comuns, com paredes inteiras de celulares conectados simultaneamente, operando como uma linha de produção digital — em alguns casos, controladas por uma única pessoa.
Essas estruturas são chamadas de fazendas de celulares, ou phone farms. São instalações físicas com centenas ou até milhares de smartphones reais, equipados com chips ativos, conexões independentes e softwares de automação que simulam comportamento humano em escala. Cada dispositivo pode curtir, comentar, assistir a vídeos, criar contas, seguir perfis e interagir com conteúdos de forma automatizada — enganando os algoritmos das plataformas, que interpretam tudo como atividade real.
Como funciona a manipulação
O ecossistema que mantém essa fraude não opera de uma única forma. Há as click farms, baseadas em trabalho humano repetitivo, com pessoas executando interações em massa manualmente. Há as phone farms, com dezenas ou centenas de celulares físicos operando ao mesmo tempo. E há as SIM farms — estruturas ainda mais avançadas, com milhares de chips e números de telefone usados para criar identidades digitais em escala, dando suporte a toda a operação.
As interações geradas por essas estruturas são vendidas por valores extremamente baixos — muitas vezes por frações de centavo — o que permite escalar os números artificialmente em volume gigantesco. Em poucas horas, uma fazenda de celulares consegue gerar milhares de curtidas, visualizações e comentários, influenciando diretamente o desempenho de conteúdos nas plataformas e enganando o algoritmo sobre o que é relevante.
O mecanismo é simples e devastador: as fazendas de celulares e redes orquestradas funcionam como aceleradores. Depois que uma mensagem recebe o impulso artificial inicial e ganha visibilidade nas plataformas, usuários reais muitas vezes fazem o resto do trabalho — compartilhando, comentando e amplificando um conteúdo que nunca teria chegado até eles sem o empurrão fabricado.
Os números de uma indústria bilionária
A fraude digital já movimenta mais de US$ 40 bilhões por ano em todo o mundo, segundo levantamento da Juniper Research de 2024. Até 31% dos cliques na internet podem ser falsos, conforme o Relatório de Fraude de Tráfego da CHEQ. E 15% de todo o dinheiro investido por empresas em influenciadores é desperdiçado com engajamento fake, de acordo com o Influencer Marketing Hub de 2025. Milhões de seguidores e bilhões de visualizações podem simplesmente não representar audiência real.
No Brasil e na América Latina, o modelo aparece de forma pulverizada: há plataformas que vendem abertamente pacotes de “seguidores reais” para influenciadores, políticos, celebridades e organizações — oferecendo crescimento artificial sob demanda, com pacotes que partem de mil e chegam a 20 mil seguidores por compra.
Quando a manipulação chega à política
O impacto dessas estruturas vai além das redes sociais e chega à democracia. Em 2024, o TikTok divulgou relatório sobre a eleição na Romênia, relatando a atuação de redes falsas com personas fictícias e campanhas coordenadas de engajamento. Em um dos casos, a plataforma identificou o pagamento a um fornecedor terceirizado para publicar comentários relacionados ao pleito. O TikTok atuou removendo contas falsas, seguidores e interações manipuladas — mas o alerta estava dado.
Em 2025, a Europol desarticulou uma rede criminosa que operava na Letônia como um serviço global de criação de contas falsas em redes sociais. Durante a operação, foram apreendidos cerca de 1.200 dispositivos SIM box e mais de 40 mil chips ativos, usados para gerar identidades digitais em massa.
O caso brasileiro
No Brasil, investigações já mostraram como essas estruturas operam na prática. Em 2021, a Operação Elite Fake, realizada pela Polícia Civil de Goiás, revelou um grupo que administrava 45 perfis falsos usados para atacar reputações e extorquir vítimas. O esquema era simples: publicar ou ameaçar publicar conteúdos difamatórios e cobrar pagamento para remover as postagens. Três mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Goiânia, com apreensão de computadores, maquinetas de cartão e celulares. A Justiça determinou a exclusão dos 45 perfis falsos identificados. “Em regra, esta vítima não tem oportunidade de se defender, sendo acusada, julgada e condenada pela opinião pública. E, em muitos casos, se torna alguém recluso e eternamente estigmatizado socialmente, o que resulta em grande sofrimento psicológico e, não raras vezes, acaba no suicídio de algumas vítimas”, afirmou a delegada Sabrina Leles, titular da DERCC (Delegacia Especializada em Repressão a Crimes Cibernéticos) de Goiás.
O que fica
A percepção de popularidade e relevância pode ser facilmente manipulada — e isso acelera a circulação de conteúdos falsos ou de baixa credibilidade em escala industrial. O que parece viral pode ter sido fabricado. O que parece espontâneo pode ter sido comprado. E o que parece real pode ser uma parede de celulares num quarto de hotel, em algum lugar do mundo, funcionando 24 horas por dia para construir uma mentira que você vai acreditar.
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