Neurocientista critica a expansão dos data centers, questiona o modelo econômico da inteligência artificial e afirma que a criatividade humana jamais poderá ser reproduzida por máquinas.
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Muito além da corrida tecnológica, a inteligência artificial está provocando uma das maiores discussões filosóficas, ambientais e políticas do século XXI. Para o neurocientista Miguel Nicolelis, a disputa não envolve apenas computadores mais potentes ou algoritmos mais sofisticados. Trata-se de uma transformação que coloca em debate o papel do ser humano, o futuro do conhecimento, a soberania dos países e até mesmo os limites da própria mente humana.
Durante entrevista, Nicolelis faz uma crítica contundente ao atual modelo de expansão da inteligência artificial, especialmente à instalação de grandes data centers, estruturas que concentram enorme capacidade de processamento de dados. Segundo ele, a promessa de desenvolvimento tecnológico não corresponde à realidade.
Na avaliação do cientista, países que recebem esses empreendimentos praticamente não absorvem tecnologia. Grande parte dos investimentos é destinada à compra de equipamentos importados, principalmente chips de alto desempenho, enquanto a geração de empregos é mínima devido ao elevado nível de automação.
O custo invisível dos data centers
Nicolelis afirma que a discussão sobre data centers costuma ignorar seus impactos ambientais e sociais.
Ele cita exemplos dos Estados Unidos, onde comunidades passaram a organizar movimentos contra a instalação dessas estruturas. Segundo o pesquisador, cidades como Memphis enfrentam aumento da poluição atmosférica, crescimento de doenças respiratórias e cardiovasculares e pressão sobre os sistemas de energia e abastecimento de água.
Outro exemplo mencionado é o norte da Virgínia, região que concentra centenas de data centers e onde, segundo ele, houve forte aumento nas tarifas de energia elétrica e desvalorização de imóveis. O cientista também destaca que diversos projetos estão migrando para regiões rurais e áreas com escassez hídrica, ampliando os conflitos pelo uso de recursos naturais.
Inteligência artificial gera riqueza?
Para Nicolelis, o atual ciclo de investimentos bilionários em inteligência artificial ainda não produziu retorno econômico proporcional.
Ele afirma que as grandes empresas de tecnologia investiram trilhões de dólares, mas ainda buscam um modelo sustentável de monetização. Em sua avaliação, boa parte das aplicações atuais produz conteúdo de baixo valor agregado, enquanto áreas realmente estratégicas continuam dependendo da inteligência humana.
Quando máquinas passam a conversar apenas com máquinas
Uma das críticas mais fortes do neurocientista recai sobre o ambiente acadêmico.
Segundo ele, pesquisadores utilizam inteligência artificial para escrever artigos científicos; editores recorrem às mesmas ferramentas para selecionar revisores; e revisores também utilizam IA para avaliar os trabalhos. O resultado, afirma, é um ciclo fechado no qual máquinas passam a produzir, revisar e validar conhecimento sem participação crítica suficiente dos pesquisadores.
Nicolelis alerta que esse processo favorece erros, referências inexistentes e amplia o fenômeno da chamada “pós-verdade”, colocando em risco a credibilidade da produção científica.
O futuro não é inevitável
Na avaliação do cientista, o avanço da inteligência artificial não deve ser encarado como um destino inevitável.
Ele defende que a tecnologia seja utilizada como ferramenta de apoio à análise de grandes volumes de dados, mas rejeita a ideia de que sistemas de IA possam criar conhecimento de forma independente.
Segundo Nicolelis, algoritmos trabalham sobre informações previamente existentes. Já a criatividade humana nasce da capacidade de formular ideias inéditas, algo que, em sua visão, permanece fora do alcance das máquinas.
Filosofia explica os limites da IA
Grande parte da entrevista mergulha em uma discussão filosófica sobre a origem da inteligência artificial.
Nicolelis afirma que muitos dos conceitos utilizados atualmente têm raízes em uma tradição iniciada por Platão e reforçada, posteriormente, por pensadores como Kant, segundo a qual o conhecimento seria aquilo que pode ser organizado por regras formais.
Nesse contexto, ele lembra o trabalho do matemático Kurt Gödel, que demonstrou que nenhum sistema formal é simultaneamente completo e consistente. Para Nicolelis, essa descoberta revela justamente o limite matemático da inteligência artificial.
Em sua interpretação, a mente humana produz emoções, abstrações, criatividade e novos conceitos que não podem ser reduzidos a algoritmos matemáticos, razão pela qual jamais poderão ser totalmente reproduzidos por máquinas.
Capitalismo de vigilância e controle
Nicolelis também amplia a discussão para o campo político.
Inspirado em autores como Shoshana Zuboff e Yanis Varoufakis, ele argumenta que a inteligência artificial deixou de ser apenas um negócio tecnológico para se transformar em instrumento de vigilância, concentração de poder e controle de dados.
Na visão do pesquisador, o verdadeiro interesse das grandes empresas de tecnologia não está apenas no consumidor comum, mas na administração de estruturas estatais, contratos públicos e grandes bases de dados governamentais, capazes de movimentar bilhões de dólares.
A mente humana continua insubstituível
Apesar das críticas, Nicolelis não se coloca contra a tecnologia.
Ele defende o uso da inteligência artificial como ferramenta de apoio à pesquisa, à análise estatística e ao processamento de grandes volumes de informações. O que rejeita é a ideia de que a tecnologia possa substituir aquilo que considera exclusivamente humano: criatividade, imaginação, consciência, emoções e produção genuína de conhecimento.
Para o neurocientista, existe uma barreira que a inteligência artificial jamais conseguirá ultrapassar: a capacidade humana de criar conceitos inéditos e compreender o mundo para além da lógica matemática. É justamente nessa fronteira, afirma, que reside o futuro da humanidade.



















