Central de Britagem move a maior obra de engenharia rodoviária em andamento no Brasil
Rio / São Paulo
Em meio a uma das maiores obras de infraestrutura rodoviária em execução no Brasil, um complexo industrial silencioso vem se tornando protagonista de uma transformação pouco visível para quem passa pela Rodovia Presidente Dutra, mas decisiva para o futuro da engenharia pesada. Trata-se da Central de Britagem da Nova Serra das Araras, estrutura que simboliza um novo paradigma: o de que grandes empreendimentos podem — e devem — nascer a partir do reaproveitamento total de seus próprios resíduos.
A reportagem especial do jornal Folha do Interior visitou o canteiro de obras e apurou como a central instalada no coração do empreendimento vem garantindo eficiência logística, economia de recursos naturais e redução significativa de impactos ambientais.
Executada pela RioSP, uma empresa Motiva, a obra da Nova Serra das Araras avança entre os quilômetros 225 e 233 da BR-116, na divisa entre Piraí e Paracambi, com o objetivo de ampliar a capacidade e a segurança do trecho. Mais do que duplicar pistas, o projeto vem consolidando um modelo de engenharia circular, no qual praticamente nada se perde.
Um canteiro que produz o próprio insumo
Desde o início das obras, em abril de 2024, mais de 200 detonações controladas foram realizadas para a abertura do traçado e a implantação das novas pistas. Esse processo resultou na retirada de cerca de 350 mil metros cúbicos de material rochoso — volume que, em obras convencionais, exigiria transporte para bota-foras licenciados ou aterros externos. Na Nova Serra das Araras, o destino é outro.
Todo o material extraído segue diretamente para a Central de Britagem, instalada dentro do próprio canteiro. Ali, as rochas passam por um processo de beneficiamento que as transforma em brita, pó de pedra e macadame, insumos utilizados nas camadas de aterro, pavimentação e concretagem das estruturas.
Segundo o gerente de implantação da obra, Virgílius Morais, o reaproveitamento é total.
“Todo o material rochoso que é detonado durante os fechamentos da rodovia vai para a central de britagem. Ele é beneficiado conforme o diâmetro necessário e reaproveitado integralmente na própria obra, seja em aterros, pavimento ou concreto”, explica.
O resultado é uma redução expressiva no transporte de cargas, no consumo de combustíveis fósseis e nas emissões de gases de efeito estufa — além de ganhos diretos de produtividade.

Asfalto que volta a ser asfalto
A lógica do reaproveitamento também se estende ao pavimento. Durante os serviços de manutenção e restauração da rodovia, o asfalto antigo é removido e transformado em RAP (Reclaimed Asphalt Pavement), um dos insumos mais eficientes da engenharia rodoviária sustentável. As obras da Nova Serra das Araras estão com 60% de avanço físico.
Na Nova Serra das Araras, cerca de 13 mil toneladas de material asfáltico reciclado já estão sendo utilizadas. O RAP é incorporado tanto em camadas estruturais quanto na produção do CBUQ, a massa asfáltica aplicada na pista.
Para o coordenador de engenharia da RioSP, Tiago Pinho Batista, a mudança representa uma quebra de paradigma.
“O material que antes era tratado como resíduo passa por beneficiamento e retorna para o pavimento. O que antes não tinha mais utilidade hoje se torna parte da estrutura da rodovia”, afirma.
Atualmente, o RAP já é empregado em 100% dos preenchimentos de acostamento, em 69% das reciclagens estruturais e entre 15% e 25% da produção do CBUQ. Apenas em 2025, foram recuperados 541 quilômetros de faixa, com aplicação de 136 mil toneladas de misturas asfálticas. Para 2026, a previsão é quase triplicar esse volume, chegando a 1.543 quilômetros restaurados.
Menos descarte, mais inteligência ambiental
Os números revelam a dimensão do reaproveitamento. As escavações da Nova Serra das Araras geram cerca de 2,5 milhões de metros cúbicos de material de corte. Desse total, aproximadamente 700 mil m³ são rochas e 1,8 milhão de m³ correspondem a solo e material terroso, que também são majoritariamente reutilizados nos aterros e na conformação do terreno ao longo do traçado.
Essa estratégia reduz drasticamente a necessidade de áreas de descarte externas, minimiza impactos ambientais e acelera o cronograma da obra.
Paralelamente, a RioSP mantém monitoramento ambiental contínuo, com acompanhamento da qualidade da água de três cursos d’água próximos, além de controle da qualidade do ar por meio de equipamentos que medem partículas em suspensão. Até o momento, todos os indicadores permanecem dentro dos limites estabelecidos pelas resoluções do Conama.
O licenciamento ambiental, conduzido junto ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea), também prevê o resgate e a realocação de espécies da fauna e flora, garantindo que a obra avance com responsabilidade socioambiental.

Um legado que vai além do concreto
Com investimento de R$ 1,5 bilhão apenas na Nova Serra das Araras e previsão de R$ 26 bilhões ao longo de 30 anos na concessão das rodovias Via Dutra e Rio-Santos, a RioSP aposta em um modelo que alia escala, eficiência e sustentabilidade.
A Central de Britagem, mais do que um equipamento industrial, tornou-se símbolo dessa transformação. Em vez de caminhões levando resíduos para longe considerável, há um fluxo contínuo de reaproveitamento. Em vez de desperdício, há planejamento. Em vez de impacto, há mitigação.
Na prática, cada rocha detonada ganha uma nova função. E, na Nova Serra das Araras, essa engenharia silenciosa ajuda a construir não apenas uma rodovia mais moderna e segura, mas também um novo padrão para as grandes obras de infraestrutura no Brasil.




















