Movimento amplia pressão internacional sobre o crime organizado brasileiro e reforça investigações sobre ligações com a máfia italiana
Internacional – A Itália deu um passo importante no combate internacional ao crime organizado ao passar a enquadrar integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) na rígida legislação antimáfia do país. A medida ocorre em meio ao avanço de investigações que apontam conexões entre a facção brasileira e a organização criminosa italiana ‘Ndrangheta, considerada uma das mais poderosas do mundo.
A decisão das autoridades italianas ocorre após a chamada Operação Samba, conduzida pela Procuradoria Distrital Antimáfia de Turim, que passou a tratar integrantes do PCC dentro do mesmo modelo jurídico utilizado historicamente para combater organizações mafiosas italianas. Pela primeira vez, membros da facção brasileira responderão a acusações fundamentadas na legislação antimáfia do país europeu.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, os brasileiros Demétrio Batista de Oliveira, de 55 anos, e Nicholas Charles Evangelista Lopes, de 33, foram enquadrados por tráfico internacional de drogas e associação criminosa sob a ótica da legislação antimáfia italiana.
As investigações ganharam força após depoimentos do mafioso italiano Vincenzo Pasquino. Em colaboração com autoridades, ele afirmou ter atuado como intermediário entre integrantes da ‘Ndrangheta e o PCC em negociações relacionadas ao tráfico internacional de cocaína entre América do Sul e Europa. Segundo Pasquino, havia um modelo de cooperação estruturado entre as organizações criminosas para abastecer o mercado europeu de drogas.

Segundo o delator, o acordo previa que o PCC financiaria 50% da droga enviada para a Itália e que a cocaína entraria pelo porto de Gioia Tauro. Ele afirmou que a venda no país ficaria a cargo de famílias como os Nirtas, de San Luca, com distribuição principalmente na Sicília e no norte italiano.
De acordo com investigadores italianos, o PCC passou a ser monitorado não apenas como uma facção brasileira voltada ao tráfico, mas como uma organização com características transnacionais, estrutura hierárquica consolidada, capacidade financeira internacional e atuação em diferentes países, características semelhantes às observadas em grupos mafiosos tradicionais.
Pressão internacional cresce
O endurecimento da postura italiana ocorre no mesmo momento em que os Estados Unidos anunciaram a inclusão do PCC e do Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas estrangeiras, decisão que passa a vigorar em junho e que amplia mecanismos de sanções financeiras e cooperação internacional contra as facções brasileiras.
No Brasil, entretanto, o governo federal mantém o entendimento de que PCC e Comando Vermelho devem ser enquadrados como organizações criminosas e não como grupos terroristas. O argumento é que a legislação brasileira exige motivação política, ideológica ou religiosa para caracterização do terrorismo, enquanto as facções atuariam com finalidade econômica ligada ao tráfico de drogas e outros crimes.
A movimentação italiana é vista por especialistas em segurança pública como mais um indicativo da crescente internacionalização das facções brasileiras, que hoje operam rotas de tráfico, lavagem de dinheiro e estruturas logísticas em diversos países da América Latina, Europa e África.
Embora não haja, até o momento, um anúncio formal do governo da primeira-ministra Giorgia Meloni classificando oficialmente o PCC como organização terrorista, a adoção da legislação antimáfia contra integrantes da facção representa um dos movimentos mais duros já realizados pela Justiça italiana contra o grupo criminoso brasileiro.
Para investigadores europeus, o principal foco é impedir que as conexões entre o PCC e a ‘Ndrangheta fortaleçam ainda mais o fluxo internacional de cocaína que chega aos portos europeus, especialmente na Itália, Holanda, Bélgica e Espanha.



















