Por Gregório José
No ano passado, o Brasil foi tomado por uma invasão silenciosa e barulhenta ao mesmo tempo. Motinhas elétricas surgiram aos montes nas ruas, avenidas, ciclovias e calçadas. Pequenas no tamanho, grandes no problema. Vieram com a promessa de mobilidade fácil, barata e moderna. Vieram também praticamente livres de regras, exigências e fiscalização. E como quase sempre acontece por aqui, a liberdade virou abuso.
Sem capacete, sem habilitação, sem placa e sem medo, muitos condutores passaram a tratar o trânsito já caótico das cidades como se fosse um videogame. Avançavam sinais, disputavam espaço com pedestres, cortavam carros e ignoravam qualquer noção de convivência urbana. A sensação era clara. Tudo podia. E pior. As autoridades de trânsito estavam de mãos atadas, impedidas de multar, apreender ou sequer enquadrar aquelas motinhas em regras claras.
O resultado não poderia ser diferente. Acidentes se multiplicaram, conflitos se tornaram rotina e o risco passou a fazer parte do trajeto diário de quem anda a pé, de bicicleta ou de carro. O trânsito virou terra de ninguém e alguns condutores passaram a se comportar como se fossem donos dela.
Agora a conta chegou. A partir de 2026, a história muda completamente. O que antes era tratado como brinquedo urbano passa a ser reconhecido como o que sempre foi. Um veículo motorizado. Ciclomotores, inclusive os elétricos dentro dos limites de potência e velocidade, passam a exigir registro, placa, licenciamento e habilitação. Capacete deixa de ser sugestão e vira obrigação. Ciclovia deixa de ser atalho e passa a ser território proibido.
Há quem reclame. Sempre há. Mas a verdade é simples e dura. As regras ficaram mais rígidas não por maldade do Estado, mas por irresponsabilidade de quem confundiu liberdade com vale tudo. Se o uso tivesse sido consciente, talvez a tolerância durasse mais. Mas o brasileiro tem um talento especial para esticar a corda até ela arrebentar.
E não para por aí. As cidades já sabem que o próximo capítulo dessa história atende pelo nome de patinetes elétricos, muitos deles operados por aplicativos, circulando soltos, rápidos e quase invisíveis no meio do fluxo urbano. Grandes centros e cidades turísticas não terão escolha. Ou criam regras claras agora ou repetirão o mesmo roteiro de improviso, acidente e correção tardia.
Regulamentar não é retroceder. É organizar. Trânsito não é espaço de esperteza individual, é pacto coletivo. Quem divide a rua precisa aceitar limites. A tecnologia não pode servir de desculpa para a anarquia. Seja movido a gasolina ou a bateria, veículo é veículo e responsabilidade não depende da voltagem.
A era da motinha sem regra acabou. E terminou não por perseguição, mas por excesso. O trânsito agradece. O pedestre também. E talvez, com o tempo, até os próprios condutores entendam que viver em cidade exige mais do que acelerar. Exige respeito.
Gregório JoséJornalista/Radialista/FilósofoPós Graduado em Gestão EscolarPós Graduado em
Ciências Políticas
Pós Graduado em Mediação e ConciliaçãoMBA em Gestão Pública



















