Pesquisa do ChildFund mostra que adolescentes estão vulneráveis online; especialista alerta que escolas expõem alunos em redes sociais para fazer marketing
Sul Fluminense – O abuso sexual infantil mudou de endereço. Ele pode estar no celular do seu filho — e, muitas vezes, chega pela porta que parece mais segura: a escola. É o que alertam especialistas em direito digital e proteção da infância em todo o Brasil, num debate que ganhou força com a entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) digital.
O que diz a pesquisa
Uma pesquisa inédita do ChildFund sobre violência sexual contra adolescentes na internet mostra um cenário alarmante. Quatro em cada dez jovens já interagiram com desconhecidos suspeitos online. Dessas interações, 55% aconteceram em aplicativos de mensagens como WhatsApp e Telegram — plataformas que parecem seguras justamente por serem privadas.
Outros 43% dos adolescentes relataram ter sido expostos a conteúdo sexual online sem qualquer interação prévia. A exposição acontece antes mesmo de qualquer escolha. O risco ainda se intensifica durante a madrugada: a insegurança online é 2,26 vezes maior no período noturno, quando a maioria dos adultos já dormiu e as crianças ficam sozinhas com as telas.
O dado mais preocupante: 94% dos adolescentes ouvidos na pesquisa disseram não saber como denunciar violência online. A ameaça existe, está próxima — e a maioria não sabe o que fazer quando ela aparece.
O ECA digital e as obrigações das plataformas
O ECA digital representou um avanço concreto nesse cenário. “O que acontece é um reforço dessa obrigação, porque agora as próprias plataformas precisam olhar para esse tipo de conteúdo e há também os canais de denúncia mais facilitados”, explicou Catarina Fugulin, especialista em direito digital, publicidade e mídia. “As plataformas precisam prestar conta das denúncias que recebem.”
A lei obriga que aplicativos, redes sociais e plataformas digitais adotem mecanismos de proteção específicos para crianças e adolescentes, respondam às denúncias de abuso e cooperem com as autoridades na identificação de conteúdos criminosos.
O risco que vem da escola
Mas há uma questão que ainda escapa ao debate: o papel das próprias escolas na exposição de crianças nas redes sociais. Muitas instituições mantêm perfis abertos no Instagram e em outras plataformas, publicando fotos e vídeos de alunos em nome da divulgação de suas atividades. Para Catarina Fugulin, essa prática é incompatível com a proteção da infância.
“Se você tem um perfil aberto numa rede social, é porque você quer se fazer conhecer pelo público. Se você quer manter contato com os pais, então deixa a página fechada. Você só aceita quem é pai, mãe ou responsável legal”, afirmou a especialista. “Uma coisa é divulgar a imagem de uma criança num perfil aberto para que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo possa entrar, ver aquela imagem, baixar aquela imagem, manipular aquela imagem.”
Catarina vai além e aponta o risco que muitos pais desconhecem. “A gente sabe que por trás das redes sociais existe um bastidor de compartilhamento de informações entre plataformas e inteligência artificial. A gente sabe que tem uma rede de pedofilia muito grande. Então por que a gente coloca a criança exposta desse jeito numa rede social?”
A prática ganhou até um nome: sharenting — o hábito de compartilhar imagens de crianças nas redes. Já existe consciência crescente sobre os riscos quando os próprios pais fazem isso. A pergunta que a especialista faz é por que as escolas ainda ficam de fora desse debate. “A escola deveria ser a primeira a preservar e lutar pelo melhor interesse da criança. Não consigo entender como a exposição das crianças num perfil aberto, para fins de marketing, contempla o melhor interesse da criança. Porque para mim está contemplando o melhor interesse da escola, que é divulgar os seus próprios serviços.”
Proteger crianças hoje exige mais do que vigiar a rua. Exige educação digital, presença ativa dos adultos, canais de denúncia acessíveis e responsabilidade das escolas sobre o que publicam e para quem.
Em caso de denúncia de abuso ou exploração sexual infantil, o Disque 100 funciona 24 horas, é gratuito e pode ser anônimo.



















