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Irmãos Batista compram fabricante de armas que armou o Iraque

Redação Folha do Interior by Redação Folha do Interior
25 de agosto de 2026
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Venda da Avibras ao grupo J&F está submetida ao Cade; empresa forneceu armamento ao regime de Saddam Hussein nos anos 1980

São Paulo

A holding J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista — controladores da JBS —, está prestes a assumir o comando de uma fabricante brasileira de armamento pesado com um passado e tanto: a Avibras, empresa de São José dos Campos que, nos anos 1980, forneceu equipamento militar ao Iraque de Saddam Hussein durante a guerra contra o Irã. A negociação foi confirmada pela própria companhia em nota oficial publicada em seu site nea última sexta-feira (21) e a trajetória da empresa foi reconstruída pelo perfil Curioso Mercado em uma série de publicações nas redes sociais.

Uma fábrica de foguetes nascida para fazer aviões

Fundada em abril de 1961 por quatro engenheiros recém-formados no ITA, a Avibras nasceu com a proposta de fabricar “aviões brasileiros” — daí o nome. O plano de negócio original, porém, não decolou. A virada aconteceu em 1965, quando a Força Aérea Brasileira repassou à empresa a tecnologia do foguete Sonda, e ganhou força em 1977, quando o Brasil rompeu o acordo militar com os Estados Unidos e a indústria bélica nacional passou a crescer.

O contrato com o Iraque

Foi nesse cenário que a Avibras se tornou fornecedora do regime de Saddam Hussein. Segundo o levantamento do Curioso Mercado, já em 1981 o Iraque encomendou à empresa uma arma capaz de compensar a desvantagem numérica do país na guerra contra o Irã. A resposta foi o Astros, um lançador de foguetes montado sobre caminhão. As vendas ao Oriente Médio somaram US$ 1 bilhão até 1987, período em que a fábrica chegou a empregar 6 mil pessoas.

O fim do conflito, em 1988, quase quebrou a companhia: o Iraque virou alvo de embargo internacional e deixou dívidas de centenas de milhões de dólares, levando a Avibras à concordata em 1990. A empresa só voltou a respirar durante a Guerra do Golfo, quando os dois lados do conflito passaram a usar o Astros em combate.

Décadas de altos e baixos até a crise final

Nos anos seguintes, a Avibras seguiu vivendo de contratos internacionais — vendeu Astros à Malásia em 2001 e chegou a desenvolver o AV-TM 300, primeiro míssil de cruzeiro brasileiro. Em 2017, viveu seu auge recente, com a Indonésia comprando lançadores por US$ 405 milhões e faturamento anual de R$ 1,7 bilhão.

A empresa nunca se recuperou totalmente, no entanto, do desaparecimento em alto-mar de seu fundador e principal executivo, João Verdi de Carvalho Leite, num acidente de helicóptero em janeiro de 2008, logo depois de decolar de Angra dos Reis. A pandemia agravou o quadro: em 2022, a Avibras voltou a pedir recuperação judicial, com dívida de R$ 600 milhões, salários atrasados e uma greve de cerca de 900 metalúrgicos que durou 1.280 dias. Compradores estrangeiros, como a chinesa Norinco e a australiana DefendTex, chegaram a negociar a compra da empresa e recuaram. Em março de 2025, a própria União pediu a falência da companhia, por dívida de R$ 200 milhões.

A entrada dos Batista

Foi nesse contexto de falência decretada que os credores aprovaram, ainda em 2025, um plano que afastou a família fundadora do comando e transferiu os ativos para uma nova empresa, sem dívidas, batizada de Avibras Aeroco. A companhia captou R$ 300 milhões com investidores privados — entre eles Joesley Batista, que colocou como condição para entrar no negócio a quitação das dívidas trabalhistas, cerca de R$ 230 milhões, pagas em março deste ano. A fábrica reabriu em maio, sob o comando do executivo Sami Hassuani, o mesmo que já havia assumido a operação da empresa após a morte do fundador, em 2008.

Três meses depois, segundo o Curioso Mercado, o Grupo J&F dos irmãos Batista dá um passo maior: a compra da totalidade da empresa. A aposta do grupo é entrar num mercado global de armamento aquecido pela guerra na Ucrânia, que fez países ao redor do mundo voltarem a investir pesado em rearmamento. Caso a operação seja concluída, mísseis e lançadores de foguete passam a integrar o portfólio da J&F ao lado de carne, celulose e energia — negócios que já tornaram o grupo um dos maiores conglomerados privados do país.

O que a empresa fabrica hoje

Segundo o próprio site da Avibras Aeroco, a área de defesa da empresa está organizada em torno dos seguintes sistemas:

Astros — sistema de foguetes e mísseis de artilharia terra-terra, capaz de disparar foguetes, mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro táticos a partir de uma mesma plataforma, com alcance de 9 a 300 km;

Míssil Tático de Cruzeiro (MTC) — nova geração de míssil com propulsão por turbina e alcance de até 300 km, ainda em processo de certificação;

Míssil Tático Balístico (MTB) AV-SS-100 — em desenvolvimento, com alcance superior a 100 km, projetado para atingir alvos táticos, operacionais e estratégicos a partir do sistema Astros;

Skyfire — sistema de foguetes ar-terra de 70 mm, usado em aeronaves, helicópteros e também em versão terrestre, com capacidade de disparar rajadas de 36 foguetes em 12 segundos e alcance de até 12 km;

Sistema Fila — sistema de defesa antiaérea de baixa altura, desenvolvido em parceria com empresas internacionais;
Sistema de Defesa Antiaérea de Média

Altura — solução em desenvolvimento que combina mísseis e radares para proteção de infraestruturas críticas.

Além do braço de defesa, a companhia também mantém uma área de tecnologia espacial, incluindo foguetes de pesquisa.

O que diz a nota oficial da empresa
Em comunicado publicado em seu site nesta sexta-feira (21), a própria Avibras Aeroco confirmou a negociação e informou que o negócio ainda depende de aprovação das autoridades:

“A Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda. (‘Avibras Aeroco’) foi informada pelo Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimentos em Participações Multiestratégia (‘Fundo Brasil Crédito’) que uma transação foi submetida à análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (‘CADE’). Caso seja aprovada e desde que sejam concluídos os trâmites necessários para o fechamento, a transação resultará na venda da totalidade das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da Avibras Aeroco, para a Globe Investimentos S.A. (‘Globe’), empresa do Grupo J&F.

A companhia manterá o mercado informado sobre eventuais desdobramentos da operação.”

A nota é assinada pela Avibras Aeroco e datada de Jacareí, 21 de agosto de 2026. Ou seja: a venda ainda não está fechada — depende do aval do Cade e da conclusão dos trâmites do negócio —, mas a intenção das partes já é pública.

Fontes: nota oficial e página de Defesa publicadas pela Avibras Aeroco em seu site institucional (avibrasaeroco.com), acessado em 21/8/2026, e conteúdo publicado pelo perfil Curioso Mercado (@curioso.mercado) no Instagram.

Tags: AvibrasIrmãos BatistaJBS
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