Levantamento ouviu mais de mil pessoas em todas as regiões do país e revela que a maioria reconhece que as famílias sozinhas não conseguem enfrentar os riscos do ambiente digital
País
Sete em cada dez brasileiros defendem que crianças e adolescentes menores de 16 anos sejam proibidos de acessar redes sociais. É o que revela pesquisa realizada pela Family Talks em parceria com a Market Analysis, que ouviu mais de mil pessoas em todas as regiões do Brasil. O resultado coloca o Brasil alinhado a um movimento global: em média, 71% das pessoas em 30 países também defendem restrições de acesso para menores nas plataformas digitais.
A opinião é especialmente forte entre mulheres e pessoas idosas, que lideram o apoio à medida. O argumento central de quem defende a restrição é direto: para esse grupo, as redes sociais fazem mais mal do que bem aos jovens. Apesar de 61% dos entrevistados atribuírem aos pais a principal responsabilidade por proteger os filhos na internet, a maioria reconhece ao mesmo tempo que as famílias sozinhas não conseguem enfrentar a complexidade do ambiente digital — o que justificaria a intervenção do Estado e das próprias plataformas.
Um ponto que chama atenção na pesquisa é a contradição entre percepção e ação: mesmo reconhecendo os riscos, apenas uma minoria dos pais adota ferramentas concretas de controle parental. Segundo dados do Porto Digital de 2025, apenas 20% dos pais afirmaram ter intenção de usar essas ferramentas — enquanto 9 em cada 10 brasileiros acreditam que os jovens não têm apoio emocional e social suficiente no ambiente online.
O modelo australiano
A referência à Austrália não é por acaso. Em novembro de 2024, o país se tornou o primeiro do mundo a aprovar uma lei que proíbe o acesso de menores de 16 anos a redes sociais, com multas milionárias para as plataformas que descumprirem a regra. A legislação australiana transferiu a responsabilidade da fiscalização das famílias para as próprias empresas de tecnologia — exigindo que sejam elas a verificar a idade dos usuários e a impedir o acesso de crianças.
O modelo gerou debate mundial e acelerou discussões semelhantes em outros países. No Brasil, o ECA Digital — lei sancionada em 2025 e em vigor desde março de 2026 — estabeleceu que crianças até 16 anos só podem acessar redes sociais com conta vinculada à de um responsável. A medida foi um avanço, mas especialistas apontam que a fiscalização efetiva ainda é um desafio.

O que dizem os dados sobre os riscos
A preocupação com o impacto das redes sociais na infância e adolescência é respaldada por evidências crescentes. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 revelou que 92% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos acessam a internet no país — cerca de 24,5 milhões de jovens. Desse universo, 75% já têm perfil próprio em redes sociais, um terço das contas é totalmente aberto ao público e 61% das crianças adotam práticas que as tornam vulneráveis a adultos mal-intencionados.
O impacto na saúde mental também preocupa. Estudos internacionais têm associado o uso intensivo de redes sociais ao aumento de ansiedade, depressão e distúrbios de sono entre adolescentes, especialmente meninas. A lógica dos algoritmos, projetada para maximizar o tempo de tela, cria um ambiente de exposição contínua a conteúdos que os jovens nem sempre têm maturidade para processar.
Plataformas e responsabilidade
Um dos pontos mais sensíveis do debate é a responsabilização das próprias plataformas. As empresas de tecnologia têm conseguido, historicamente, escapar da responsabilização direta pelo problema — transferindo o ônus para pais e usuários. Mas o cenário começa a mudar. Além da lei australiana, o TikTok, o Instagram e o YouTube anunciaram nos últimos anos medidas de proteção a menores — como modos restritos, limites de tempo e bloqueio de determinados conteúdos —, ainda que críticos considerem essas iniciativas insuficientes diante da escala do problema.
O consenso que emerge da pesquisa brasileira é que a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital não pode depender apenas da boa vontade das famílias ou da autorregulação das plataformas. A maioria da população já chegou a essa conclusão. O desafio agora é transformar essa percepção em política pública efetiva.



















