Volta Redonda se despediu, no último domingo (28), de Nicolau Martins de Oliveira, um dos maiores nomes da história cultural do município. Aos 83 anos, o maestro, músico e professor encerrou uma trajetória marcada por mais de seis décadas dedicadas ao ensino musical, à formação humana e à construção de um legado que atravessa gerações. Sepultado no Cemitério Portal da Saudade, Nicolau deixa como herança um projeto que se confunde com a própria identidade da cidade: o “Volta Redonda Cidade da Música”.
Mais do que um educador, Nicolau foi um semeador de oportunidades. Seu trabalho revelou talentos, abriu caminhos profissionais e mostrou que a música pode ser instrumento de cidadania, disciplina e transformação social. Hoje, sua ausência física contrasta com uma presença permanente: ela ecoa em cada sala de aula, em cada ensaio, em cada apresentação e, sobretudo, na vida de milhares de alunos que tiveram na música um novo horizonte.
Um legado que atravessa gerações
Idealizado em 1974, o projeto que décadas depois receberia oficialmente o nome de “Volta Redonda Cidade da Música” tornou-se referência nacional em educação musical. Atualmente presente em mais de 30 escolas da rede municipal, o programa atende crianças do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental e é reconhecido por integrar ensino artístico, formação cidadã e inclusão social.
Parceira de longa data do maestro, a maestra Sarah Higino resumiu o alcance desse trabalho ao afirmar que Nicolau ensinou muito mais do que música. Segundo ela, milhares de jovens encontraram, sob sua batuta, valores como disciplina, responsabilidade e perspectiva de futuro. “Ele não formou apenas músicos, mas cidadãos. A música, para ele, era um ato de doação”, destacou.

Da banda da igreja aos grandes palcos
Catarinense de nascimento e volta-redondense por escolha, Nicolau teve o primeiro contato com a música ainda criança, cantando no coro e tocando trompete na igreja Assembleia de Deus. Chegou a Volta Redonda aos 15 anos, em 1958, para estudar na Escola Técnica Pandiá Calógeras, onde mais tarde também se tornaria professor.
Formado em fagote pela Escola Nacional de Música da UFRJ, ampliou seus estudos nos Estados Unidos, em universidades que marcaram sua visão pedagógica. Na Fevre, onde iniciou suas atividades em 1974, reestruturou a Banda Marcial, criou a Banda Mini, implantou cursos de percussão e pífaros e consolidou a Banda de Concerto, que passou a representar Volta Redonda em eventos de destaque.
Sob sua liderança, alunos e grupos musicais da cidade se apresentaram em palcos emblemáticos como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a Sala Cecília Meireles, a Igreja da Candelária, a Sala São Paulo e o Cine-Theatro Central de Juiz de Fora. Um de seus maiores orgulhos foi reunir mais de duas mil crianças de 20 cidades fluminenses em uma apresentação histórica no Theatro Municipal.
A música como missão de vida
Entre os projetos que marcaram sua trajetória estão a criação da Orquestra Sinfônica Embrião de Volta Redonda, da Orquestra de Cordas, das orquestras de violinos, violoncelos e contrabaixos, além do programa “Do Aço ao Clássico”, que ampliou o acesso da população à música erudita.
Sua frase mais emblemática sintetiza sua visão de mundo: “No dia em que Volta Redonda for conhecida como a cidade da música, aí então estaremos fabricando o melhor aço do mundo.” Para Nicolau, cultura e desenvolvimento caminhavam juntos — e a música era parte essencial desse processo.
Um mestre que permanece
Alunos formados pelo projeto hoje integram orquestras e bandas em todo o país e no exterior, como a Sinfônica Nacional, bandas militares e universidades internacionais. Muitos seguiram carreira profissional; outros levaram para a vida os ensinamentos que aprenderam entre partituras e ensaios.
Em uma de suas últimas entrevistas, Nicolau definiu esses alunos como os “filhos que não teve”. Disse que, pela música, Deus lhe deu uma família inteira — e que seu maior orgulho era ter sido o primeiro degrau da escada de cada um deles.
Volta Redonda se despede do maestro, mas não do seu legado. Ele segue vivo em cada nota tocada, em cada criança que descobre a música pela primeira vez e em cada aplauso que ecoa nos palcos da cidade. Nicolau Martins de Oliveira não foi apenas um maestro: foi o arquiteto de um sonho coletivo que transformou a história cultural de Volta Redonda.



















