Polícia Civil e MPRJ prendem oito pessoas em esquema que servia ao TCP, CV e PCC; investigação aponta conexão com terrorismo internacional a partir da Tríplice Fronteira
Rio de Janeiro – Uma operação deflagrada nesta quarta-feira (15) pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro revelou algo que vai muito além do crime organizado local: uma rede de lavagem de dinheiro que movimentou mais de R$ 100 milhões para facções criminosas brasileiras que pode ter conexão financeira com um integrante de uma estrutura de financiamento da Al-Qaeda — a organização terrorista responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001.
A descoberta foi feita durante as investigações da Operação Hawala, que identificou uma relação comercial entre uma empresa vinculada aos investigados e um indivíduo sancionado pelo Office of Foreign Assets Control, o OFAC — órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos responsável pela aplicação de sanções econômicas internacionais. Segundo as apurações, esse indivíduo integra uma estrutura de financiamento da Al-Qaeda. O vínculo será aprofundado a partir da análise das provas apreendidas na operação.
Oito pessoas foram presas. As diligências ocorrem em endereços no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Foz do Iguaçu.
A Tríplice Fronteira no centro do esquema
A conexão internacional não se limita ao terrorismo. As investigações identificaram a atuação dos suspeitos na região conhecida como Tríplice Fronteira — a área de divisa entre Brasil, Paraguai e Argentina que organismos nacionais e internacionais de prevenção à lavagem de dinheiro monitoram como um importante polo de operações financeiras de grupos terroristas e criminosos.
Segundo as apurações, integrantes do esquema utilizaram essa região para ampliar a capacidade de circulação internacional dos recursos ilícitos, por meio de práticas como lavagem de dinheiro, contrabando e tráfico de drogas — e mantendo ligações com o PCC e o Comando Vermelho.
Um núcleo libanês e empresas de fachada em vários estados
No centro do esquema financeiro estava um núcleo de empresários de origem libanesa apontado como responsável por ampliar a circulação interestadual e internacional dos recursos. Empresas registradas em São Paulo e Minas Gerais eram usadas para movimentar valores entre operadores financeiros, outras empresas de fachada e integrantes das facções no Rio de Janeiro.
Entre 2021 e 2024, a estrutura movimentou mais de R$ 100 milhões por meio de dezenas de empresas distribuídas em diferentes estados. Os métodos incluíam transferências sucessivas entre pessoas jurídicas vinculadas, depósitos fracionados em espécie, uso de laranjas para movimentação bancária e operações incompatíveis com a capacidade financeira declarada pelos investigados.
Uma única operadora financeira administrava empresas que movimentaram mais de R$ 47 milhões no período. Um contador era apontado como peça fundamental do esquema — responsável por conferir aparência de regularidade às empresas usadas na lavagem, deixando de cumprir obrigações legais de comunicação de operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Segundo as investigações, o mesmo profissional já havia figurado em outros inquéritos relacionados a fraudes societárias.
Três facções, um mesmo caixa
A investigação teve início a partir da atuação do Terceiro Comando Puro no Complexo de São Carlos, na Região Central do Rio. Com o avanço das apurações, os agentes descobriram que a mesma engrenagem financeira também lavava dinheiro do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital — funcionando como uma espécie de “prestadora de serviços financeiros” para diferentes organizações criminosas simultaneamente.
A operação foi conduzida pela Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados em conjunto com o Gaeco do MPRJ, com apoio do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil, da Coordenadoria de Recursos Especiais e do Departamento-Geral de Polícia Especializada. As investigações prosseguem para identificar novos integrantes, localizar ativos e aprofundar as linhas internacionais em cooperação com órgãos estrangeiros.



















